Exercício de escrita criativa nº 003

Latidos para Marcelo

Eu não entendo este cachorro. Ele é totalmente pirado. Qual é o problema dele? Ele late para aquela árvore o tempo todo, seja dia, seja noite, seja  sol, seja chuva. Haverá algo naquela árvore que eu ainda não identifiquei? Não sei, talvez um ninho de pássaros, uma família de saguis ou mesmo um gato que goste de pular do muro até a árvore. Realmente não sei dizer.

Lembro que certa noite acordei com os latidos fui até a janela e vi o cachorro latindo raivosamente em direção à árvore. Ele rosnava, rodopiava, voltava a latir, sentava ofegante. Pensei em ir ao local para ver se eu enxergava alguma coisa, mas estava frio, além disso, tive uma sensação incomum, um tanto quanto irracional. Certo temor se apoderou de mim, imaginei um homem enforcado e preso por uma rôta corda, dependurado. Ninguém podia vê-lo, exceto o cão. Dizem que os animais são bons para isso: veem o sobrenatural.

Pelo sim, pelo não, fechei a janela, voltei para cama e fui dormir, custei. Acabei adormecendo. Esqueci do ocorrido, mas a insistência do cachorro trouxe a tona essa lembrança. Curioso como ideias absolutamente despropositadas invadem a nossa mente. Tomam conta dos nossos pensamentos.

O cachorro não para de latir, ele olha fixo para a árvore. Haverá algo ali? Não sei dizer, começo a temer. Vejo como saída duas soluções, a primeira prendo o cachorro na parte da frente do quintal evitando esse barulho incômodo, mas aí a eventual alma penada sem tê-lo para assombrar se voltaria contra mim. A segunda alternativa é cortar a árvore, vai se embora tudo. A sombra, o canto dos passarinhos, as flores da primavera, mas livro-me também da alma penada.

Pelo jeito, a segunda opção é um bom negócio. Mas se na falta da árvore o assombro não chegar até meu quarto e atar a corda no ventilador de teto? Aí as coisas ficam complicadas, corre o risco de ser eu aquele a ter que passar a noite toda latindo.

Tudo isso vai mal. Vender a casa é a solução. Que se vire o novo proprietário com o fantasma que está dependurado na árvore. A ele (ao fantasma é claro) nunca mais o verei, quer dizer, nunca o vi, mas aí é questão de tempo. Não tenho nem mais coragem de olhar para a árvore. O cachorro late e eu passo correndo, olhando para o lado oposto.

A culpa também é do cachorro, porque latir contra a árvore? Lata contra o diabo que o parta. Olha que eu o parto, pego o machado e parto, parto o cão, o diabo, parto a árvore, parto a minha própria cabeça. Mas aí Marcelo, a alma penada que vive dependurada na árvore da minha casa, terá uma sensação de vitória. 

Isso que não! Posso simplesmente pegar uma corda como esta aqui, amarrá-la em meu pescoço deste jeito, a outra ponta na árvore, bem lá em cima. Agora vou subir os galhos e atirar-me de lá. Quero ver! Ria de mim agora Marcelo enforcado.

Nossa quanto latido, vai embora cão. Eu não entendo este cachorro. Ele é totalmente pirado. Qual é o problema dele? Ele late para mim o tempo todo. Não consigo ter paz. Deixa eu ficar dependurado aqui, por toda a eternidade.

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